Quando a euforia vira dúvida: a grande virada da IA generativa
Por anos, acompanhei a crescente onda de otimismo ao redor da inteligência artificial generativa. Parecia que estávamos diante da solução definitiva para toda demanda de criação, atendimento e automação. Empreendimentos como a Fábrica de Agentes surfaram esse movimento, traduzindo tecnologias em aplicações práticas para vendas, suporte e análise, muito além dos famigerados chatbots enlatados. Mas então, algo mudou. E mudou de forma súbita.
O lançamento do GPT-5 e o primeiro choque de realidade
Agosto de 2024 vinha sendo aguardado como o mês em que uma nova era da IA ganharia forma. Era o lançamento aguardadíssimo do GPT-5. Eu mesmo acompanhava comentários e previsões com certa ansiedade. Só que, quando finalmente chegou, o que se viu foi uma recepção morna, opiniões divididas e, no fim das contas, a sensação de que aquela prometida revolução não veio.
O mercado, sempre sensível a expectativas frustradas, reagiu rápido. O preço das ações de empresas de tecnologia oscilou fortemente. Poucos dias depois, alguns veículos divulgaram outro dado que me chamou ainda mais atenção: cerca de 95% dos projetos-piloto de IA generativa estavam fracassando, segundo um relatório divulgado na mesma semana.
Quando todo mundo esperava mais, a realidade bateu na porta.
O ambiente, até recentemente repleto de entusiasmo, agora se preenchia de dúvidas e reuniões silenciosas.
O “recuo” das empresas: onde estão as provas?
Diante de tantas notícias negativas, resolvi vasculhar reportagens, entrevistas e comunicados oficiais. A ideia era encontrar alguma grande empresa admitindo uma redução de investimentos em IA generativa. Ou algum executivo declarando uma pausa nos experimentos. Mas, para minha surpresa, não achei nada do tipo.
Parei e pensei: algo está fora do lugar. Se 95% dos projetos-piloto dão errado, se o mercado reage e se o software não entrega nem perto do esperado, por que ninguém assume ter mudado de rota?

Fui buscar respostas e, nas conversas que tive, surgiram algumas interpretações. E aqui faço questão de dividir com quem se interessa por IA, porque essa reflexão acompanha também a missão da Fábrica de Agentes: trazer clareza às decisões sobre tecnologia.
Três hipóteses que ajudam a entender o que está acontecendo
A ausência de declarações abertamente negativas das empresas me levou a três possíveis caminhos explicativos:
- Pode ser um típico sinal de bolha: quando um setor vive uma febre, mesmo sinais ruins não freiam investimentos imediatamente. Muitas vezes, lideranças seguem acelerando, pressionadas por não ficarem atrás dos concorrentes ou por já terem feito apostas altas.
- Talvez as manchetes alarmistas não tenham tanto efeito assim: embora notícias sobre fracassos ganhem destaque, a burocracia e os planejamentos longos das grandes empresas seguem seu curso. Metas, orçamentos e expectativas já foram ajustados meses antes.
- Muitos setores ainda não sabem como aplicar a IA de maneira real: nesta situação, a paralisação não é exatamente um recuo, mas sim um sinal de que as empresas só estão aprendendo, ou até mesmo esperando por melhores soluções.
Nos bastidores, algo fica claro: muitos executivos testemunham projetos-piloto que não entregam o prometido, mas não culpam diretamente a tecnologia. Consultores e especialistas, como vi em relatórios e apresentações, preferem afirmar que faltam dados, estratégia ou rapidez de implementação. Assumir erro de rota não está na agenda de nenhum deles.
O papel do tempo na adoção real: o que disse Martha Gimbel
Em conversas recentes, ouvi um ponto importante de Martha Gimbel, do Yale Budget Lab. Ela ressaltou que nenhum salto de tecnologia traz efeitos práticos tão rápidos quanto sugerem as manchetes.
“O ciclo de impacto tecnológico é sempre mais longo do que se espera.”
Ou seja, talvez ainda estejamos presos à ilusão da urgência, querendo colher frutos antes de plantar de verdade. Martha destacou que, em poucos meses, é ingênuo acreditar em mudanças profundas no mercado de trabalho ou em resultados revolucionários.
Se pensar bem, esse contexto é semelhante ao vivido há décadas com o computador ou o próprio uso da internet nas empresas. O entusiasmo inicial sempre esbarra em dificuldades práticas: adaptação dos sistemas, treinamento, integração e, acima de tudo, tempo.
Quando o fracasso não se torna culpa da tecnologia
Nas imersões que acompanhei com consultorias e grupos de inovação, ficou claro que a narrativa do fracasso geralmente não se resume à ferramenta. Veja a lista de justificativas mais usadas:
- “Ainda não temos o volume de dados adequado.”
- “Nossa equipe não está pronta para operar a IA.”
- “A solução não se encaixou na complexidade do nosso processo.”
- “Faltou mais tempo para experimentar.”
Poucos assumem que a tecnologia em si não entrega; o problema é sempre transferido para fatores externos.
Essa postura se sustenta, em parte, pelo medo de perder reputação ou parecer tecnológico demais (ou de menos) diante dos colegas. É uma espécie de “jogo de empurra” que acompanho de perto quando falo com empresas que buscam modelos personalizados, como o que oferecemos na Fábrica de Agentes. O resultado? Muitos ciclos de aprendizado, pouca transparência.
Exemplos reais: o que algumas empresas fizeram (ou não fizeram)
Em 2024, um dos exemplos que ganhou repercussão foi a Klarna. Primeiro, a empresa anunciou demissões justificando que a IA assumiria certas funções. Foi manchete em vários veículos. Só que meses depois, a mesma empresa começou a recontratar parte dos funcionários e admitiu que o papel humano ainda era central.
- Outras gigantes dos setores de fast-food e varejo anunciaram testes ambiciosos com assistentes de voz IA para drive-thru. Depois, os projetos foram discretamente encerrados, muitas vezes sem estardalhaço ou grandes comunicados públicos.
- No mercado de bebidas, ouvi falar sobre o uso prometido de IA generativa para criar campanhas publicitárias inovadoras. Porém, ao checar, descobri que a maioria dos anúncios ainda era feita pelos métodos tradicionais, apesar das promessas de investimentos milionários.

Esses movimentos escondem uma lição importante: não basta instalar IA ou automatizar processos; é preciso entender até onde humanas e máquinas podem caminhar juntos sem que um sofra com a expectativa irreal sobre o outro.
Quem quiser conhecer outros casos, inclusive os desafios e verdades sobre o uso de agentes de IA em empresas reais, vai se surpreender com os aprendizados de um artigo recente do nosso blog sobre o tema.
Manchetes alarmistas são suficientes para mudar planos?
Posso dizer, com alguma experiência, que esse clima de instabilidade não costuma, sozinho, provocar viradas na estratégia. Empresas demoram a desistir de apostas já feitas, especialmente quando o setor inteiro parece insistir que “o futuro é agora”.
Dirigentes, por vezes, preferem reconhecer fracassos de forma silenciosa, sem admitir publicamente ajustes ou cortes. Talvez esperem que outras ações de vanguarda tragam resultados antes de, de fato, mexer nos seus próprios rumos.
Até mesmo quando erros acontecem, há certa relutância em expor os aprendizados. É como se o silêncio fosse parte da estratégia, uma espécie de seguro contra críticas, investidores e mídia. Nessa linha de raciocínio, deixo uma pergunta:
Se empresas realmente estivessem desistindo dos gastos com IA, por que não assumem isso abertamente?
A resposta, para mim, ainda não é clara. Há muito medo de fuga de investidores, receio de perder reputação tecnológica ou, simplesmente, ninguém quer ser o primeiro a admitir. No nosso segmento, é perceptível ainda um esforço enorme para mostrar ao mercado que soluções personalizadas como as da Fábrica de Agentes são o “próximo passo”, mesmo diante de obstáculos encontrados no caminho.
Para quem busca aprofundar esse debate, recomendo a leitura de discussões que envolvem temores dos especialistas e questões éticas e estratégicas na adoção de IA, sempre presentes em nossos conteúdos.
Aliás, temos visto como, mesmo em setores inovadores, ainda há dificuldades em passar do piloto ao uso real. A série de posts sobre tendências e aprendizados em IA revela isso de forma transparente, inclusive quando tratamos do papel de agentes inteligentes no franchising, assunto que também abordamos de forma aprofundada no artigo sobre IA no suporte ao franqueado.
O que esperar daqui para frente?
Termino com uma reflexão aberta. Talvez ainda sejamos otimistas demais, acreditando que basta vontade ou manchetes para mudar rotas profundas. Ou, quem sabe, apenas estamos esperando o tempo correr, para aprender o que funciona ou não de fato.
A única certeza é que a IA generativa, especialmente quando bem aplicada por projetos sob medida como os da Fábrica de Agentes, não será descartada tão cedo. O que muda é o ritmo, a pressão por resultados e o quanto as empresas estão dispostas a aprender com as falhas e ajustar suas apostas.
Acertar o passo demora, mas não tentar é um desperdício ainda maior.
Se você deseja entender, de forma transparente e personalizada, como trazer valor real ao seu negócio com inteligência artificial, conheça o trabalho da Fábrica de Agentes. Afinal, talvez o que esteja em xeque não seja a tecnologia em si, mas sim a pressa. Que tal conversar conosco?
